SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

quarta-feira, novembro 08, 2017

Memórias de uma senhorinha
Voltando para casa



Enquanto o carro percorria a estrada, pneus rolando no saibro com o barulho característico, os pensamentos de nossa senhorinha ainda estavam estacionados naquela casa e nas impressões que a mesma lhe causara.
 E se perguntava, enquanto a mão alisava a caixa já deteriorada pela ação do 
tempo ( é lógico que a nossa curiosa senhorinha a havia trazido) , quais os segredos se esconderiam naquelas fotos e naquelas cartas.E sua fértil imaginação já passeava por outra era, outros sonhos e novas aventuras.


Porém a vida real a solicitava e vamos deixar que ela aterrisse na sua ,enquanto o carro estaciona na garagem e começam a retirar a bagagem do mesmo.Da garagem se entrava diretamente na casa e os amigos pediam que fizesse um café...era a realidade a chamar por ela da maneira mais prosaica possível. Os sonhos ficarão para outro dia...o domingo terminara e outra semana começaria, com suas alegrias, sobressaltos e correria.
A escola trouxera para ela uma riqueza imensa...alunos que a faziam pesquisar sobre novos assuntos e um novo sonho: voltar a estudar para prestar vestibular e realizar um antigo desejo, o de cursar a faculdade de Pedagogia. Muitos anos a separavam de seu Curso Normal e deveria se esforçar muito para conseguir o objetivo.Ademais , a faculdade era na vizinha cidade de Barbacena...próxima , porém , de difícil acesso já que ainda era uma estrada de "chão" que fazia a ligação entre as duas cidades. Quando chovia a dificuldade aumentava e muitas vezes ficavam "ilhados", sem a menor chance de locomoção.
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Em uma outra ocasião, nossa senhorinha retomará a narrativa e investigará o conteúdo da misteriosa caixa.Por enquanto o dever a chama e ela não costuma se furtar a ele. Ama as histórias antigas,perde-se nas transparências dos tules e das organzas e tenta adivinhar o que as cortinas esvoaçantes ocultam...em uma tarde de devaneios voltará à caixa e seu conteúdo.

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E a segunda feira chegou e ,com ela, a rotina de estudos e planos de aula, as tardes com os amigos que passavam para um dedo de prosa e acabavam servindo de cobaias para os seus mirabolantes planos de aula. Suas aulas eram como um programa de TV infantil, sempre trazendo novidades. A falta de material era compensada pela criatividade e pelo aproveitamento de materiais que sobravam e seriam jogados ao lixo...caixas de papelão, garrafas pet, embalagens de ovos e tantos outros que aparecessem.


Mas um fato novo aconteceu e veio transformar tudo isto.A irmã e o cunhado vieram visitá-la trazendo com eles um aluno a quem o cunhado dava aulas de Português. Era australiano e era  cônsul no Consulado em Brasília...muito atento aos problemas brasileiros, principalmente os educacionais, manifestou o desejo de conhecer a escola e os seus alunos.Ficou chocado com o que viu...alunos em sua maioria calçados com velhas sandálias de borracha, roupinhas limpas porém muito surradas, sem uniforme e sem identidade. Eram crianças desprovidas de alegria e somente quando a nossa senhorinha os conduzia através do mundo da fantasia deixavam entrever um sorriso...

O amigo ( Neil era o seu nome),após a visita à escola, manifestou o desejo de ajudar já que seu consulado dispunha de uma verba exatamente para este fim. Pediu à nossa senhorinha que providenciasse uma lista completa de todo o material necessário para as suas aulas e também material de higiene para as crianças, uma eletrolinha e discos (LPs) para o ensino de ritmos (muito necessário para alunos especiais), um armário de aço para organizar o material e sapatos e uniformes para todos. Uma fada madrinha não teria feito melhor...



Nossa amiguinha não cabia em si de contentamento quando foi informar à sua querida Diretora o sopro divino que havia se manifestado em forma de um australiano brincalhão e gentil ...um anjo de bondade e generosidade.
Não devo me alongar mais. Vamos deixar a nossa senhorinha imaginando e dando rédeas à imaginação.

Eu voltarei...aguardem!!!



Leninha Brandão















quinta-feira, novembro 02, 2017

Memórias de uma senhorinha


A casa da Baronesa e seus mistérios

Enquanto os amigos preparavam o derradeiro lanche antes de partirem, nossa senhorinha se encostou à balaustrada da antiga sacada e, romântica que era, fechou os olhos e se pôs a imaginar... em seus pensamentos vislumbrava a casa imaculadamente branca, com janelas azuis e muitas flores. Trepadeiras cingiam o portão de grades finamente trabalhadas... bouganvilles,  madressilvas e rosas destacavam-se, misturando os aromas e colorindo as paredes brancas. Nos beirais 
rendados, colibris,  pintassilgos e rouxinóis soltavam os seus doces trinados, enquanto celeremente, preparavam os ninhos que receberiam os primeiros filhotes. Uma escada de degraus de mármore esverdeado recebia e acolhia os visitantes... uma bela porta trabalhada se abria para uma saleta encantadora onde se destacava um belo lustre de cristal. Cortinas de organza asseguravam  o aconchego e uma bruxuleante luz reberverava sobre os copos coloridos pousados, elegantemente,  sobre uma mesinha de mogno.
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Havia observado na chegada, uma caixa de latão que a ação do tempo não destruíra...voltou então à realidade e se pôs a procurar a tal caixa. Não precisou procurar muito...em um dos cômodos a encontrou e , disposta a satisfazer a sua já conhecida curiosidade, tirou da  bolsa um chaveiro em formato de abridor,companheiro fiel dos seus passeios.Munida desta ferramenta forçou um pouco a velha tampa da caixa e com facilidade conseguiu abri-la.Fotos e cartas a surpreenderam e, entre elas, a de uma jovem senhora de cabelos negros, caprichosamente trançados e presos com um belo laço de fita, lembrando-lhe a sua tia tão querida e saudosa.E, para seu total espanto, a foto fora tirada ao lado da mesinha de mogno onde,
surpreendentemente,sobre uma bandeja espelhada
se alinhavam os copos coloridos que imaginara.
Sonho? Ilusão? Jamais saberia a resposta...

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" O que os objetos são, em si mesmos,fora da maneira como nossa sensibilidade os recebe,permanece totalmente desconhecido para nós. Não conhecemos coisa alguma a não ser o nosso modo de perceber tais objetos- um modo que nos é peculiar- não necessariamente compartilhado por todos os seres..."
 Kant
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Saiu de suas elucubrações e voltou à realidade, com as vozes dos amigos a chamá-la.Com ela seguiriam as lembranças daquele dia tão especial e, a diáfana cortina que separa a ilusão da realidade, continuaria em seus pensamentos.


Leninha Brandão



Amigos queridos,eu vou, mas voltarei...aguardem!!!






"



  





segunda-feira, outubro 30, 2017

Memórias de uma senhorinha

                                                                   A casa da Baronesa

Ouvindo o canto das maritacas, nesta tarde embruscada de uma primavera fora de todos os padrões, me vem à memória os passeios em Dores de Campos , os amigos que lá deixei, a senhorinha na flor da idade e seus passeios com os amigos. Revendo um álbum de fotos encontrei-a , risonha e feliz usufruindo a sua primavera e a doçura daqueles momentos.
Primeira foto: Miriam,Drinha,nossa senhorinha e Beto
Segunda foto: a casa da baronesa
Terceira foto: Miriam, Beto ,nossa senhorinha e Drinha
Quarta foto: Beto faz da ponte a sua passarela
Quinta foto: Miriam, nossa senhorinha(em pé) e Caíque

E foi numa manhã também embruscada de primavera que nossa senhorinha preparou uma " matula" e saiu com os amigos para conhecer a casa da baronesa, uma ruína do que fora, outrora , uma suntuosa casa da nobreza mineira.Poucos sabiam a origem e quais teriam sido os habitantes desta casa que, imponente,
 se destacava na paisagem.Ali perto a velha e abandonada estação de trem , serviu-lhes de abrigo para saborearem a merenda, preparada com carinho. 
Nas fotos, a alegria de todos e a beleza do lugar.

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Após a merenda foram explorar a casa ,cuja beleza se adivinhava naquelas ruínas...e , bastava fechar os olhos e imaginar aqueles salões repletos de pessoas elegantes dançando ao som de uma orquestra de sonhos.Quantas histórias devem ter se desenrolado naqueles aposentos,quantos risos e quantas lágrimas...crianças barulhentas correndo e brincando, com as suas alegres vozes a preencher os espaços e os ouvidos dos pais...
...e pisavam devagarinho, com medo de invadir as lembranças que, envoltas em ternura e magia,habitavam aquele recanto do passado.Quantas partidas e chegadas, quantas juras de amor, quantos nascimentos e quantas mortes aquelas paredes silenciosamente presenciaram...
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A vida muda num instante, como tão lindamente descreveu a escritora americana Joan Didion, em seu livro autobiográfico O Ano do Pensamento Mágico:
“A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e aquela vida que você conhecia acaba de repente.”
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Um novo cenário havia sido construído e outras vozes preenchiam aqueles salões nos quais a vida fervilhara outrora.A melancolia parecia invadir os pensamentos dos amigos, enquanto terminavam a visita.Uma chuva primaveril deu o ar de sua graça transformando as cores e tornando brilhantes as belas vidraças que haviam, bravamente,resistido ao tempo.

Era hora de partir e deixar no passado a magia daqueles momentos.


Outros passeios virão...


Eu vou, porém voltarei...aguardem!



Leninha Brandão


domingo, outubro 22, 2017

Memórias de uma Senhorinha


E nossa senhorinha usava a imaginação e a criatividade para suprir a falta do material suplementar para usar aquela preciosa cartilha, fabricando letras de papelão( os cinco amiguinhos primeiramente) e inventando uma melodia para os versinhos que os acompanhavam:
Somos cinco amiguinhos
 que se querem muito bem
cada qual fala sozinho
não precisa de ninguém
a e i o u....
E as crianças adoravam e cantavam animadamente, felizes com esta nova forma de aprender em meio à música e à brincadeira.

......................................................................................................E a alegria preenchia aqueles momentos e retornava para ela que amava enxergar naqueles olhinhos a esperança e o futuro. Saía com eles para os bosques que circundavam a cidade, catavam folhas e sementes para compor murais com os "amiguinhos". Era uma festa a montagem destes murais. Após a montagem convidavam outros alunos e a escola toda visitava aquela sala "diferente" de uma professora "meio maluquinha" que ensinava brincando.
E a hora de histórias, a hora da música e o horário do relaxamento...ah, como era gostoso sentir a vibração daquelas mentes acordando para a magia das histórias de fadas...olhinhos brilhantes e concentração total. Pareciam anestesiados por suas palavras e esta era a maior e melhor recompensa para as noites mal dormidas em que planejava as suas aulas.


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E o sonho de nossa senhorinha se tornava realidade... no fim do ano nenhum aluno em recuperação...quem é professor sabe da alegria de se conseguir este feito. A brisa suave da montanha, o sabor de uma fruta madura, a doce cantiga dos pássaros na primavera são as sensações comparáveis a esta alegria. Seu coração se preenchia , ela se sentia plena e seus olhos retratavam esta vitória. 
E neste final de ano a supervisora da escola a escolheu para a missão árdua e espinhosa para muitos, mas que para ela seria o maior desafio em sua carreira: assumir a Classe Especial, experiência inovadora no Estado de Minas Gerais o que a levaria a novas buscas de conhecimento e à exploração de um caminho jamais percorrido por ela. Lembrem-se que não havia o Dr. Google naquela época.

Vamos deixar a nossa senhorinha dando" tratos à bola " , e colocando a imaginação a funcionar.

Eu vou, mas prometo voltar.

Leninha Brandão

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sábado, outubro 07, 2017

Memórias  de uma senhorinha

“ Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias.”
Fernando Pessoa



Nossa senhorinha se pautava nestes sábios ensinamentos e seguia o seu destino, pisando delicadamente em organzas e linhos, calma e tranquila sem se preocupar com as sombras que porventura surgissem em seu caminho. Achava difícil fechar a porta, as raízes das lembranças eram profundas e o seu relicário guardava relíquias importantes e de intenso valor afetivo. Vivia cada dia e saboreava cada momento, sem jamais se esquecer do passado. As brincadeiras com os filhos, a ternura dos contos de fadas e das melodias de ninar, estavam ali, como personagens de uma história por demais importante para ser relegada ao esquecimento.


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Mergulhou em seus planos de aula ( Já sem prática. Quem dera existissem os recursos de hoje)...


  
Sua primeira turma foi de 1ª Série . Doces e meigas crianças, ávidas por novidades, apaixonaram-se pela professora nova, forasteira na cidade onde todos se conheciam. A professora que sempre ficara com a "melhor sala" de 1ª série estava de licença e por este motivo ela foi agraciada com esta turma. Amou os novos alunos e adotou um livro que encontrou na biblioteca da escola. A Casinha Feliz, nome do livro.O Método :Fônico.

Alfabetização pelo método Fônico - A Casinha Feliz

"Quando se fala sobre alfabetização, sempre surge a discussão sobre o melhor método. Os argumentos, na teoria, parecem fazer sentido...com boa argumentação, é possível convencer qualquer pessoa que não entenda do assunto sobre a superioridade de um ou outro método (é o que fazem as escolas). No entanto, toda a pesquisa científica sobre alfabetização nos últimos 80 anos, realizadas em várias populações, mostrou claramente a superioridade do método fônico. E é por isso que o governo de países que são destaque em alfabetização recomendam o método. Não vou discutir as razões políticas/ideológicas para que o mesmo não seja adotado no Brasil. Minha intenção é apenas divulgar essa informação e, ao mesmo tempo, apresentar a vocês um material que considero fantástico para a aplicação do método."

E este material fantástico foi o que nossa senhorinha encontrou, vasculhando a biblioteca da escola, ainda embalado em pacotes, muitos pacotes.









 Vamos deixar nossa senhorinha às voltas com estes pacotes de livros e em sua busca por métodos mais modernos e instigadores. Ela gosta de assumir riscos e enfrentar desafios, lembram-se?
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Eu vou, porém voltarei... aguardem!!!


Leninha  Brandão

   
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domingo, setembro 24, 2017

Memórias de uma Senhorinha

Um mundo totalmente novo se apresentava a uma senhorinha que já se habituara às mudanças e as aceitava sempre com um sorriso nos lábios e muita alegria no coração. E enfeitava a casa, coloria a vida e cuidava do dia a dia

Os filhos se mantinham em contato com ela e informavam sobre os acontecimentos na fazenda... sem a facilidade da tecnologia atual, usavam as ligações interurbanas, difíceis de completar e como não havia telefone em casa, dependendo do vizinho que a avisava que dentro em poucos minutos os filhos a chamariam. E os sentimentos tinham que ser gritados, a saudade e as queixas perdendo a veemência enquanto escoavam pelo fio do telefone.
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" filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.”
José Saramago
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E numa destas conversas o filho mais velho avisou que o caçula iria lhe fazer companhia já que a Drinha estava em Iturama a maior parte do tempo. Preocupação dos filhos e alegria para ela e Dudu. 


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O tempo  voou  e enquanto nossa senhorinha tecia seus pensamentos e planejava o  tão desejado momento da chegada do filho, eis que um outro desejo se tornou realidade... foi publicada  no Diário Oficial do Estado de Minas a sua transferência para a E. E. Duque de Caxias, ansiosamente aguardada por ela e que iria trazer-lhe de volta a alegria de novamente ensinar. Dois acontecimentos diferentes porém com uma importância semelhante para sua alma inquieta e "inimiga " da rotina...

Vamos deixar nossa senhorinha a acalentar os seus sonhos e aguardar a realização dos mesmos.


 Aguardem com calma...eu voltarei.

                             Leninha Brandão


quarta-feira, agosto 30, 2017


Memórias de uma senhorinha


Dores de Campos...cidade calma, tranquila e repleta de belas histórias. Seu povo hospitaleiro a conquistou ... não havia a Laje Encantada porém a Figueira Encantada, cuja beleza apresentava um fascínio irresistível


Ao fundo da praça da figueira, ao lado direito, vê-se uma casa comprida, grande e antiga (com formato em L). Esta casa foi o que se chamava, até o século XIX, de “Casa Grande”, denominação dada à casa principal de uma fazenda. Foi  uma das primeiras casas do Distrito de Dores do Patusca no século XVIII e era dividida em três compartimentos, onde residiam três famílias (vale destacar que atualmente, esta casa está muito modificada, pois sua estrutura original era de pau-a-pique, assoalhos de tábuas, portas e janelas em madeira nobre e maciça, uma casa realmente de fazenda).
Nesta mesma época,séc XVIII, foi construído em sua proximidade um curral, onde foram fincados alguns mourões, um destes parte de uma figueira, que ainda verde, em pouco tempo começou a brotar. Com o passar dos tempos, esse mourão veio a se transformar em uma grande e bonita árvore, que, pelo formato de seus galhos, assume a forma de guarda-chuva e que tem uma dimensão bem definida pelo tronco que mede cerca de dois metros de diâmetro e galhos de quatorze metros.

E em seu peito começou a brotar um sentimento de pertencimento àquele lugar. A magia da árvore secular, o modo como as pessoas reverenciavam a sua presença, a casa em que morava, com sua cozinha imensa lembrando uma cozinha de fazenda, foram fatores preponderantes desta mudança de atitude em relação à nova cidade. Nesta ocasião conheceu uma pessoa que seria muito importante em sua vida... seu amigo Beto, pessoa dotada de uma sensibilidade transbordante, um artista nato que organizava as festas da cidade e trazia alegria aos lugares onde chegava. Já estava vencendo o contrato de aluguel da casa e ele a convenceu a se mudar para outra na avenida principal da cidade. Houve , então, uma mudança radical em sua rotina. A amiga Drinha fez concurso para a área de fiscalização do Estado e teve que assumir o seu posto em Iturama, cidade do Triângulo Mineiro, distante de Dores de Campos e onde faria plantões de dez dias...só viria após este tempo, ficando em casa durante vinte dias.O filho mais novo, Dudu, viria morar com ela ...esta história é longa, cheia de peripécias e merecerá um capítulo à parte.
 Beto passou a ir todos os dias à sua casa, após o trabalho e com ele levava os amigos: Pacelli ( O Tiel) , Quincas ( Filho do proprietário da casa, Myriam e Maria José. Mais tarde o também grande amigo Emetério , primeira pessoa trans que ela conheceu, em uma época em que não se falava sobre este assunto.Amigos fiéis que lhe davam suporte e apoio em sua nova vida.


E ,como os amigos que se reuniam na fazenda, eram realmente indispensáveis à sua vida e até hoje habitam as suas recordações.
E quando a Drinha estava em casa retomavam os passeios aos arredores buscando conhecer a riqueza histórica e as belezas naturais da região. Na estrada para Prados conheceram a casa da Baronesa, belíssima construção dilapidada pelo tempo mas ainda rica de mistério e magia.
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 Minas são muitas , já dizia Guimarães Rosa e necessário se faz concordar .

E Drummond afirmava em seu soberbo poema:


E com a palavra do Mestre eu me despeço. Mas voltarei, amigos!

Leninha Brandão       








sexta-feira, agosto 25, 2017

Barbacena-Cidade das Rosas

Memórias de uma Senhorinha
Surpresas boas a aguardavam em Dores de Campos...a casa era perfeita e acomodaria confortavelmente os móveis e as pessoas que viessem...e ela amava receber pessoas...para onde quer que fosse. Os filhos, os irmãos, os amigos, todos teriam espaço naquela casa...e ainda havia um porão enorme (não era ainda o sótão dos seus sonhos, mas era o ideal para suas reuniões com os amigos). Não vou apoquentá-los com os detalhes da mudança... são cansativos e não vem ao caso. Vamos encontrá-la já às voltas com a decoração da nova residência, o que a fazia esquecer a tristeza que fora a partida de Resende Costa. E já imaginava cada cantinho, com suas colchas a decorar as paredes e as camas, seus quadros, suas lembranças e sua vastidão de sonhos.
A gente não pode ter tudo, mas a esperança e o sorriso não podem ficar para trás.
 Logo ficou conhecendo Lourdes...trabalhava na pensão em frente à casa e , muito amável, ofereceu-se para lavar –lhe as roupas.( A mãe era lavadeira e passava roupas como ninguém.) E todos os dias passava para trocar uns dedinhos de prosa com ela. Também se tornou amiga do rapaz que havia indicado a casa. Era dono do açougue em cuja porta estava sentado naquele dia.


Ao lado da casa havia um canteiro e seu sonho de ter novamente flores se realizaria...comprou mudas de rosas em Barbacena (Cidade das Rosas, lembram-se?) Sementes de alyssum foram lançadas ao solo e dentro de pouco tempo estavam brotando, alegrando a entrada da casa e o coração de nossa amiguinha.


E os dias transcorriam e a cidade foi se tornando simpática...novas amizades surgiram , os amigos André e Cláudio vinham sempre e faziam gostosos serões ao som do violão da Drinha e das vozes dos amigos.  O porão foi todo decorado com chitões cobrindo os estrados e colchas , muitas e coloridas colchas nas paredes e no chão , à guisa de tapetes.Mais ou menos como na imagem, um perfeito porão para amigos se reunirem.
Imagem Pinterest
Muitas acontecências ainda virão  povoar a vida e os dias de nossa senhorinha, porém não devo me alongar. Aguardem os próximos episódios!!!
Eu vou, mas voltarei!!! 




Leninha Brandão


sábado, agosto 19, 2017

Memórias de uma senhorinha

Imagem da Net

"Sempre tive pés falhos. Pés que falharam na vontade de prosseguir. Na ânsia de deixar pra trás. Que falharam na curiosidade de descobrir o que havia pela frente.
Sempre tive pés medrosos. Como será o solo ainda desconhecido? Movediço? Árido? Cheio de espinhos? Medos famintos que engoliram a necessidade de andar para frente.
Sempre tive pés tortos. Sempre pisei nas suas extremidades. Nunca de pé cheio. Talvez pelas incertezas da caminhada. Ou talvez porque viver é caminhar torto mesmo: cambaleando nas pernas, procurando por algo em que se apoiar.
Sempre tive pés que minavam meus movimentos. Que me deixavam parado, à espera do que nunca veio. Do que nunca viria.
Mas sempre abriguei, adormecida em algum lugar entre o joelho e o calcanhar, uma gota de coragem suficiente para dar ao meu pé a força para o próximo passo. Com pé direito. Em solo fértil. Ao encontro da flor que me recebeu com um sorriso. Que me fez desabrochar.“
(João Célio Caneschi)

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E as palavras do poeta martelavam em sua cabeça enquanto o carro engolia a distância que os separava da resposta tão esperada.
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A viagem até Barbacena transcorreu no mais profundo silêncio...pensamentos se multiplicavam na cabeça de nossa senhorinha e ela, sempre tão falante, emudeceu e levou os demais ao mesmo respeitoso silêncio. Só se ouviam os ruídos dos pneus , inicialmente sobre a terra e depois sobre o asfalto, após passarem por Barroso. Em direção à Barbacena a estrada era movimentada, com caminhões transportando cimento , o que impedia o livre fluxo dos carros...muitas curvas impediam a ultrapassagem e era uma viagem cansativa e entediante, principalmente quando se ansiava pela chegada.


E nossa amiguinha meditava, alheia ao movimento e à chuvinha fina que molhava a pista e dificultava a visão. Sempre alimentara a esperança de um dia morar em um lugar “para sempre”... Resende Costa se afigurara este local e já se via velhinha, visitando o asilo, convivendo com a amiga Tininha e sentindo o tempo escorregando preguiçosamente por entre os seus dedos... seus pés percorreriam as mesmas ruas e ladeiras, seu olhar se demoraria nas longínquas montanhas e suas mãos criariam rugas enquanto deslizassem sobre a trama daquelas colchas coloridas. 
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Enfim chegaram à Barbacena, cidade que exercia sobre ela um encanto inexplicável... suas casas coloniais, a tradição das antigas famílias, o belo Jardim do Globo, a imponente residencia dos Andradas ( O solar de tantas histórias), a Estação da Central do Brasil, a Matriz de Nossa Sra da Piedade...enfim, aquele ar de "antigamente" que ela tanto apreciava e parecia fazer parte de "outras vidas"...











Era necessário procurar o endereço do proprietário da residência e deixar os devaneios...
Informaram-se e para lá se dirigiram. Era uma papelaria muito simpática no Beco Treze de Maio.Foram atendidos por uma senhora de agradável fisionomia que logo solicitou a presença do Sr. Mourão, também  solícito e agradável. Inicialmente não demonstrou o mínimo interesse em alugar a casa, construída para o filho e que lhe trazia tristes lembranças... bastou-lhe porém escutar os motivos de nossa senhorinha e seus convincentes argumentos, para que mudasse de ideia. Combinaram os detalhes , assinaram o contrato e pronto!!! , estava feito, já eram as inquilinas do simpático senhor. Agora era voltar à Dores de Campos e conhecer a nova residência.E agradecer ao Eterno... e ao jovem rapaz que havia dado as informações.
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E vamos deixar para a próxima conversa a visita à casa tão desejada.

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Eu vou, mas voltarei... aguardem!


Leninha Brandão

quarta-feira, agosto 09, 2017

Memórias de uma Senhorinha

Memórias de uma Senhorinha
E o tempo , este senhor Implacável e do qual não podemos fugir, anunciava o final das férias e o temido momento da despedida. Malas feitas, corações apertados e um adeus que não seria por muito tempo, porém machucava como se o fosse.
Volta à rotina e aos afazeres diários...a busca por novidades nas casas das artesãs e os preparativos para uma nova incursão ao mundo dos negócios. Os olhos brilhavam ao descobrir colchas mais elaboradas e almofadas mais macias e coloridas. Brevemente estaria pronta para uma nova viagem ao Rio de Janeiro, levando nas malas a beleza e o sonho que alegrariam várias casas.
Enquanto tal não acontecia, um problema surgiu para lhe tirar o sono e o bom humor habituais. A amiga Drinha trabalhava na Coletoria Estadual  e para a cidade foi designada uma juíza cujo marido também era Coletor em outra cidade.Na época( Não sei se atualmente existe), não havia uma legislação que assegurasse ao marido o acompanhamento da esposa para o município para onde ela fosse nomeada. O casal , então, apavorado com a situação, passou a visitar as nossas amigas todos os dias, pedindo que se mudassem para outra cidade...a Drinha , no caso, deveria pedir a sua transferência para outro município afim de favorecer o jovem esposo.
Nossa senhorinha amava Resende Costa como se sua terra fosse... mais uma mudança em sua vida? Noites e noites mal dormidas e o casal a insistir de uma forma quase que desrespeitosa...feria os seus sentimentos e ela se mortificava a cada visita.
Mas, já dizem os antigos, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”... e sua resistência foi se enfraquecendo . Em um sofrido e frio dia ela concordou. Foram conhecer a cidade para a qual pediriam , muito à contragosto, a sua remoção, transferência, mudança...
Em uma tarde triste e desoladora, pegaram a estrada sem nenhuma alegria e rumaram para o seu futuro destino: Dores de Campos , cujo nome trazia para elas um significado nada agradável.
                                
Dores de Campos é um município brasileiro do estado de Minas Gerais. Fica cerca de 40 km de São João Del Rei e 35 km de Barbacena via BR-265.

Vista parcial da cidade em 2008.
Na época que ainda era um pequeno povoado chamado Povoado do Patusca, os tropeiros amarravam os cavalos em um tronco para almoçar e descansar os seus animais, onde futuramente nasceu neste mesmo local a denominada "Figueira Encantada". Este nome foi dado por historiadores uma vez que este mourão onde amarravam-se os animais não tinha vida alguma e posterior a isso nasce deste mourão uma Bela Figueira.
Assim como suas cidades vizinhas, Dores de Campos faz parte da rota Estrada Real e Trilha dos Inconfidentes.


Fonte: WIKIPEDIA   


Não lhes direi que a cidade a encantou à primeira vista 

pois estaria mentindo. Estava saindo de um sonho e 

entrando na realidade. E por mais que se tenha boa 

vontade, é bem difícil esta barganha...onde o por do

sol com o qual era presenteada todos os dias? Onde os 

artesãos com suas belas colchas e tapetes? Onde a 

magia da Laje Encantada?
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E para completar , perguntando aos moradores se encontraria casa para alugar, a resposta não poderia ser mais decepcionante... simplesmente disseram que não havia casa para alugar na cidade... os pais construíam casas para os filhos e ninguém alugaria a própria casa para um estranho. 

Os dois amigos , André e Cláudio tentavam melhorar o seu desapontamento, porém nada a tirava daquele estado de desilusão no qual mergulhara. Resolveram almoçar na Pensão do Sr Bembém (recomendada por um funcionário da Coletoria) e retornar à Resende Costa dispostas a convencer o "amável casal" da impossibilidade, da inviabilidade daquela mudança. 
Após o almoço, resolveram caminhar um pouco antes de enfrentar as duas estradas " de chão"... o asfalto ainda não havia chegado aos dois municípios, Resende Costa e Dores de Campos.
Em frente à pensão , uma casa chamou a atenção de nossa senhorinha. Mesmo mergulhada em sua profunda decepção, o seu instinto de observação não a abandonara. Sentado à porta de um açougue , um rapaz de fisionomia  simpática, observava os quatro. Obedecendo a um impulso ela lhe perguntou se aquela casa estava vazia. Qual não foi a sua surpresa quando a resposta foi afirmativa!!! O proprietário havia construído aquela casa para o filho e este havia falecido, sem nunca a ter habitado . Morava em Barbacena e para lá se dirigiram...

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Vamos fazer uma pausa para um "fechar de cortinas" temporário. Vou , mas voltarei. Aguardem!!!

Leninha Brandão





Memórias de uma senhorinha Voltando para casa Enquanto o carro percorria a estrada, pneus rolando no saibro com o barulho caracterís...

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